A Dádiva Necessária

Não saiba a vossa mão esquerda
o que dê a vossa mão direita

A questão da esmola sempre foi presente na vida dos judeus, embora não exista esta palavra no Antigo Testamento. Rezava a lei mosaica que todo proprietário deveria repartir dízimos, de três em três anos, dos seus produtos com o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva. Dessa maneira procediam os tementes a Deus oferecendo esmolas aos necessitados com receio de infringirem a lei.

Jesus na continuação do Sermão do Monte fez um alerta aos que o ouviam: “guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens”, o que pressupõe uma prevenção contra a ostentação que brota no coração do invigilante. A desatenção tem a capacidade de deturpar a partilha com o necessitado, quando se sente doador daquilo que não lhe pertence, ou seja, a dádiva é sempre da divindade em direção ao carente. Nós que nos julgamos doadores dos bens que controlamos, na verdade somos apenas testemunhas do ato que sustenta a própria vida.

Levando ao pé da letra a propositura de não deixar a mão esquerda saber o que dá a mão direita, não há como negar sua total falta de propósito, visto pertencerem ao mesmo corpo que serve de veste ao espírito imortal. Ambas trabalham em conjunto na efetivação dos pensamentos forjados na mente humana. São assim, muito mais testemunhas uma da outra e cúmplices nas ações do que concorrentes na disputa de quem faz mais.

Busquemos na pesca milagrosa ocorrida no barco de Simão Pedro uma referência que nos aclare a orientação de Jesus nesta passagem. Revela-nos João, o Evangelista, que o Mestre disse-lhes: “lançai a rede à direita do barco, e achareis”. E logo não conseguiam puxar a rede por causa da abundância de peixes.

No sentido figurado entendemos que durante toda a noite pescaram e nada conseguiram, pois utilizavam seus recursos pessoais unicamente, isto é, o personalismo, o conhecimento limitado, bem como uma visão restrita e acanhada do trabalho em si.

 Com a entrada de Jesus no barco de Simão, que representa nossa capacidade de entendimento dos ensinamentos divinos, a orientação para lançar as redes ao lado direito, significa a necessidade de trabalharmos com o altruísmo, fraternidade e o desejo de bem-estar generalizado.

Desta maneira, apropriamos o raciocínio a fim de entender a mão direita como o trabalho útil em prol do semelhante, no intuito de ajuda a toda a comunidade. Representa a realização do amor transformado em bênçãos de paz ao coração aflito que acolhe com gratidão a dádiva recebida.

A mão esquerda compreende nosso lado sombrio da personalidade envolvida nos sentimentos infelizes de ciúme, orgulho, vaidade e ostentação, dentre tantos outros. Deve ser evitada a sua manifestação para que não oblitere a ação benevolente da mão direita. Sem controle ela pode vir a perder todos os propósitos positivos que a caridade nos impõe.

Refletir nos próprios atos cotidianos, avaliando-nos hoje e sempre, constitui o roteiro do Mestre Jesus para que nossas ações positivas não se percam frente à espera de recompensa de um ato que deve ser, para todos nós, atitude natural de compartilhamento daquilo que o semelhante necessita.

Por Roberto Sabbadini