A Pandemia e o Morador de Rua

A pandemia assustou todo mundo. Precisamos do susto e do medo de morrer para lavar as mãos e tomar cuidados básicos.
Só se falou em máscaras, álcool em gel, água e sabão, lavar as mãos!…
Pipocavam notícias alarmantes anunciando milhares e até milhões de contaminados pelo vírus, a todo momento atualizavam o número de mortos cada vez maior pela doença.
Por todos os cantos do mundo as palavras de ordem, literalmente, cada lugar em seu idioma, passou a ser:
-Fique em casa!
Graças ao amigo Google, imagino que falaram por lá algo assim:
-Stay at your home! Quédate en tu casa! Dài zài jiālǐ! Restez chez vous! Resta a casa tua!
Todos nos obrigamos a nos resguardar em nossas próprias casas, isto é, quase todos, pois sempre existe a turma do contra, os negacionistas.
As autoridades públicas precisaram agir com vigor a fim de fazer cumprir os cuidados de saúde e evitar contágio maior ainda.
Todos em casa! Mas nem tanto.
Dia após dia, mais e mais pessoas descuidadas eram vistas passeando, fazendo compras e esperando em filas nas casas comerciais.
Em muitos lugares, agentes públicos ordenavam que todos fossem para as suas casas.
Mas, quem não tinha casa para onde deveria ir?
No Livro dos Espiritos, Kardec comentou que “Todos os homens estão submetidos às mesmas leis da Natureza. Todos nascem igualmente fracos, acham-se sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos, aos Seus olhos, são iguais.” Porém, aqui nesse mundo de seres equivocados há tantos que vivem sem lugar algum, à margem, diminuídos.
Foi justamente essa questão que me suscitou esse conto que vou lhe apresentar.

O Homem da Rua

O homem veio andando devagar, pois suas pernas secas e trêmulas de mais de setenta anos de idade não tinham força para fazê-lo andar com firmeza. Olhou para a praça e viu algumas pessoas em pé, outras sentadas, conversando.
O homem chegou até um dos bancos da praça, onde depositou seu pedaço de papelão que achou na frente de uma loja e sentou nele. Ficou ali, olhando a rua, talvez pensando em situações ou fatos ocorridos naquele dia, ou quem sabe, lembrando de um tempo distante.
Alguém passou por perto com uma pipoca cheirosa na mão, o estômago do homem doeu e produziu um pequeno ronco. Pouco depois, uma menina passou por ele correndo e quase pisou no seu pé, deixando alguns pingos de sorvete a poucos centímetros dele.
Ele poderia ter pensado que seria bom tomar um sorvete, afinal se fosse perguntado quando tomou um pela última vez, não saberia dizer quando.
Não demorou e um menino, desses bem miúdos, apareceu à sua frente, olhou para ele, olhou demoradamente, por fim apertou o nariz e disse:
— Eca! – E saiu correndo em direção ao balanço.
O homem levantou o braço e cheirou a axila, não entendeu direito a reação do menino.
Deu de ombros, deixou de lado.
Não demorou muito e alguns agentes da guarda municipal chegaram ali para dizer que as pessoas deveriam ir embora, obedecendo as orientações de saúde pública.
Aos poucos, aquelas pessoas foram para suas casas.
Restou apenas ele. Veio o sono, deitou no banco e se cobriu com o pedaço de papelão. Ele riu, deveria estar sonhando. Imagino que sonhar seria a melhor coisa que ele tinha de seu na vida, pois no mundo dos sonhos sempre há um lar, comida, roupas, amigos…
— Ei, acorda, vagabundo!
Era um dos guardas, em pé à sua frente.
— Aqui não é lugar para dormir!
Acordou, com os olhos embaçados, mirou a figura ameaçadora que lhe dizia:
— Não sabe que não pode ficar na rua?! Vá embora!
Ele segurou sua propriedade privada, o pedaço de papelão, e sem entender por que o guarda estava tão irritado, perguntou:
— Ir embora?
— Sim, vaza, vaza!
— Pra onde?
— Vá pra sua casa, velhote! Onde é que você mora?
Ele apontou o banco duro de madeira e respondeu:
— Eu moro aqui.
— Como mora aqui? Aqui não é lugar para você morar… Vá para sua casa. É proibido ficar na rua.
— Não tenho casa, moço. Eu moro na rua.
Nessa hora um vento gelado soprou forte, cortante, irritante. O guarda desdobrou o colarinho da farda pra proteger sua nuca do frio e comentou para si mesmo:
— Ô, friozinho brabo!
O homem ainda sem tirar o olhos do guarda, segurou o papelão na frente do próprio peito, sem dizer nada.
O guarda pigarreou, deu aquela tossezinha de quem tem alergia ás intempéries do clima, olhou para o céu escuro e percebeu que estava ainda mais escuro por causa das nuvens cerradas, pesadas.
— Vai chover ― disse.
O homem, sem deixar de mirar o guarda, tirou o papelão do peito e o elevou para o alto, acima da própria cabeça, como se fosse para proteger da chuva.
— Não… Eu quis dizer que vai chover mais tarde.
Olho no olho, expectativa. O guarda não sabia o que fazer, ficou impaciente mais um pouco.
— Olha, vou dar uma volta, se você ainda estiver aqui vou lhe dar uns tapas para você aprender.
O velho observou o outro indo embora, assobiando um forró pé de serra, devagar. Por fim, tomou coragem, se levantou e saiu daquele banco, com seu papelão debaixo do braço, quase trôpego, direto para a sua casa: o outro banco da outra praça!


Para onde ele iria?
Lembrei de uma canção de uma banda de rock brasileira:
“Eu moro na rua, não tenho ninguém / Eu moro em qualquer lugar”
Essa história me faz entender que não temos apenas uma pandemia que alastra o mundo, nos contagiando cotidianamente, mas também muitos outras formas de contaminação.
A indiferença às dores alheias se espalha de tal maneira que passamos a achar normal tantas pessoas no desalento, passando fome, dormindo nas ruas, morrendo de frio.
Muitos vivemos contaminados pelos excessos, pelo consumismo, num mundo marcado por tantas pessoas sofrendo com a falta do básico para viver.
Somos diariamente contaminados pelos vícios materiais e pelo individualismo a ponto nos ocuparmos quase que inteiramente pelos desejos pessoais e efêmeros.
Em tudo há uma causa, assim como há aprendizagem também.
Lembrando a pergunta 738 em O Livro dos Espíritos, “para conseguir a melhora da Humanidade, não podia Deus empregar outros meios que não os flagelos destruidores? Pode e os emprega todos os dias, pois que deu a cada um os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. O homem, porém, não se aproveita desses meios. Necessário, portanto, se torna que seja castigado no seu orgulho e que se lhe faça sentir a sua fraqueza.”
Se Deus nos emprega todos os dias os meios de progredirmos pelo conhecimento do bem e do mal e mesmo assim teimamos em não progredir, os flagelos são provocados por nós mesmos.
Poderíamos ter construído uma sociedade mais igualitária, uma economia mais humanizada, uma política mais cidadã e os cidadãos menos corruptos. Mas teimamos em reproduzir nossas imperfeições, privilégios, acúmulo de bens materiais, abusos e criminalidade.
Talvez por isso os flagelos sejam necessários, para nos impulsionar à força e pelo medo da morte na direção do bem comum, na busca do que é que realmente importa em nossas vidas.
Devemos entender que tudo o que ocorre tem uma causa. O que veio nos ensinar essa pandemia? Ficarmos mais em casa? Consumirmos menos? Compreendermos mais as outras pessoas? Respeitar a natureza? Buscar uma economia mais sustentável? Enfim…
Feliz será aquele que aprende com as dores e se transforma a partir das lições e do esforço pessoal e coletivo.
Aprender é necessário, mudar é urgente.

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