A PROFANAÇÃO

Morreu Maria. De repente! E João, seu marido, não tinha onde enterrá-la. De nada adiantaram os alertas de Maria para que João providenciasse um fundo mútuo funerário. Pagariam um pouquinho por mês e toda a família seria beneficiada.

Mas, João era teimoso como uma porta. E apegado, como ele só, às suas parcas economias. Além de tudo, não admitia falar no assunto morte, em sua casa.

— Estamos ficando velhos, João. E se a gente morre, para que cemitério iremos? – objetava Maria.

— A gente dá um jeito.

Agora o estrago estava feito. Túmulo da família somente na cidade em que nasceram. Distância longa, quase trezentos quilômetros. O traslado ficaria mais caro que o enterro. Molho mais caro do que o peixe.

O que fazer? O dinheiro estava curto. Só dali a duas semanas sairia a aposentadoria. No sábado à noite seria difícil comprar um túmulo, mesmo que arranjasse dinheiro. O que fazer?

Foi quando a filha – Sílvia – teve a ideia salvadora e falou, referindo-se ao marido:

— Pai, o Justino tem um túmulo. É da família dele e está vazio.

João, desesperado à procura de uma solução, balbuciou:

— Mas, será que ele nos empresta? Eu nem me dou muito bem com ele…

— Empresta sim, pai. Ele é muito bom. E também é coisa provisória, pai. Em menos de um mês a gente compra um novo para ele.

Dito e feito! Diante das circunstâncias desesperadoras, Justino não vacilou em ceder o túmulo vazio para a família da esposa. Era uma questão até de humanidade.

E seria algo transitório mesmo. Tanto é que, duas semanas depois, o sogro o procurou para adquirir um novo túmulo, a fim de restituir o que era da sua família.

 Mas, nesse ínterim, já havia ocorrido um problema muito sério. A ex-esposa de Justino soube do falecimento. Foi ao cemitério e constatou o enterro do sogro de Justino no túmulo da família. Ao invés de falar com ele e resolver o problema civilizadamente, saiu procurando filho por filho, para denunciar a profanação.

Uma questão que poderia ter sido contornada civilizadamente ganhou contornos de tragédia. Bastaria um pouco de bom senso, compreensão e espírito de solidariedade das pessoas envolvidas e tudo poderia ter sido resolvido pacificamente, em poucos dias.

As palavras ferinas, a agressividade e as ameaças proferidas pela família de Justino, no entanto, provocaram mágoas que dificilmente serão esquecidas. Feridas inúteis, que demandarão muito tempo para serem cicatrizadas.

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Diz Emmanuel que todas as vezes que nos atrevemos a nos aventurar pelos caminhos da claridade, deparamo-nos com milênios de sombras do passado. Fica difícil, portanto, controlar impulsos inferiores, a não ser à custa de muito esforço próprio, sob pena de nos entregarmos às sugestões inferiores, que nos convertem em vivos instrumentos do mal. Compreensão e respeito sempre devem nos preceder a tarefa, em qualquer circunstância, mesmo as aparentemente injustas.

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É bom a gente colocar as barbas de molho para que o futuro não nos coloque em situações irreparáveis. A ira é péssima conselheira. Na hora da raiva fazemos e falamos coisas que depois não têm conserto. Ficam para sempre. Ponderação, prudência, vigilância e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, já dizia minha avó.


Autor: Sidney Fernandes

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