AH, QUE FALTA QUE VOCÊ FAZ!

José Xavier, mais do que irmão, era o braço direito de Chico Xavier, o grande colaborador que o sustentou no início da jornada mediúnica. Em 1939, José desencarnou, deixando o irmão desconsolado. Chico não gostou nada disso e reclamou:

— Quando eu desencarnar, antes de fazer qualquer festa com ele, em nosso reencontro, vai ter que ouvir muita coisa de mim… Afinal de contas, isso é coisa que não se faz! …

Quero fazer a mesma reclamação:

— Pai Jacó! Mãe Maria! Como guias e orientadores do CEAC, vocês trabalharam mal… Há tanta gente no meio espírita que não deixaria saudades, e logo Richard, nosso amigo, nosso irmão e orientador, nosso líder, um baluarte da Casa Espírita, teve que ser levado tão rapidamente? E há quem diga que ele foi convocado para serviços importantes na espiritualidade….

 — Qual convocação, qual nada! Haverá serviço mais importante no além do que disseminar a Doutrina Espírita neste aquém? Querem o quê? Gente para atender sofredores no umbral? Pois se esse valoroso companheiro estava justamente trabalhando para que as pessoas não tenham que fazer estágio nesse purgatório, não seria melhor que ficasse por aqui?

***

Desculpem o desabafo, caros irmãos, mas, quem deveria estar aqui comemorando os CEM ANOS da nossa querida Casa Espírita, deveria ser Richard Simonetti, e não eu.

E o que diria ele, se estivesse em meu lugar?

Fui atrás de seus escritos, seus estudos e, principalmente, das orientações que ele nos deixou como testamento, para que o CEAC possa continuar com sua trajetória de amor e caridade.

NO INÍCIO, ERA ASSIM

O Espiritismo, os espíritas e o próprio CEAC já foram vítimas de perseguições e intolerâncias. Na década de cinquenta, havia um padre católico que estava empenhado em acabar com o Espiritismo. Nos seus sermões dominicais costumava dizer que a Doutrina Espírita era de iniciativa do demônio, para levar todos os seus seguidores para o inferno.

Quando passava a procissão pela rua do centro, ela parava diante do CEAC e o sacerdote exorcizava a nossa instituição, com palavras, em latim, que lembravam a expressão VADE RETRO, SATANÁS!

Os participantes da procissão persignavam-se, com medo de que o satanás os atacasse, depois de cutucado em sua morada. Os frequentadores do centro espantavam-se com tamanha ignorância e intolerância religiosa.

Os tempos passaram e o satanás obrou contra ele mesmo, pois o que temos hoje é uma das maiores instituições do país, dedicada ao bem e à verdade, respeitada por representantes da sociedade e de todas as religiões. Impossível que satanás se voltasse contra si próprio, pondo-se a estimular a bondade.

CONHECIMENTO ESPIRITUAL

Richard costumava repetir, em suas palestras, esta passagem evangélica, que ele intitulava de A Melhor Parte:

Marta, Marta, andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. No entanto, só uma coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada (Lucas, 10:38-42).

Jesus, quando falava, sempre ministrava algum ensinamento que seria estendido para toda a humanidade. Ele se referia ao conhecimento espiritual que Maria recebia dele e que a jovem, muito interessada, sorvia com grande interesse, um patrimônio inalienável, que a favoreceria por toda a vida.

Nestes cem anos de existência, o Centro Espírita Amor e Caridade nos tem oferecido inúmeras oportunidades de conhecimento e de serviço. Uma das missões do centro espírita é essa, a de oferecer aos interessados os conhecimentos que lhes servirão para toda a vida. Um patrimônio que nos trará conforto e segurança em qualquer situação, mesmo nos momentos mais difíceis de nossa existência.

Oficina de trabalho

Aos que estão dispostos a ir além do estudo de seus princípios, o CEAC oferece abençoada oportunidade do serviço que integra e mantém a casa espírita.

O que nos diria Richard Simonetti?

Ante a clareza em que se exprime a Doutrina Espírita, é inaceitável a figura do frequentador de Centro Espírita, interessado no conhecimento, distraído da vivência, desejoso de benefícios espirituais, sem interesse em colaborar com a Espiritualidade. Não vejamos nele simples hospital para cura de males que nos aflijam, nem mera escola de iniciação às excelências da Doutrina, mas, sobretudo, abençoada oficina de trabalho a sintonia com o bem.

DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO

Uma das maiores preocupações de toda a vida de Richard Simonetti foi a divulgação da mensagem espírita. Não por acaso, deixou-nos um legado de mais de sessenta obras escritas, centenas de palestras, seminários e cursos proferidos, quase cem grupos mediúnicos, além do jornal, da rádio e da TV, que levam o nome do CEAC e a sua mensagem para milhares de pessoas.

JOVENS E CRIANÇAS

Richard Simonetti costumava citar a questão 383, de O Livro dos Espíritos, justificando o estágio do espírito pela infância e pela juventude.

Lembrava-nos, sempre, de que o período da infância e da juventude são os mais propícios para que influenciemos o espírito para educar-se para a vida, superando velhos erros do passado, para que assuma a presente vida com o ânimo da transformação. E quando o adolescente, emburrado, nos diz:

— Eu não pedi para nascer.

Bom lembrá-lo de que a oportunidade da encarnação é preciosa, que a fila para novas vidas é longa e que, é provável, sim, que ele tenha pedido, e muito, para nascer cercado de familiares equilibrados, atenciosos e carinhosos.

Não se concebe uma casa espírita sem aulas de Espiritismo para crianças e jovens. Além de proporcionar aos pais maiores oportunidades de integração com o centro espírita, estarão cuidando do futuro da instituição.

GUARDA-CHUVA

Extraordinária esta mensagem, em que Simonetti assim se expressa:

Chico Xavier regressava do trabalho de assistência numa vila, em companhia de vários confrades.

Uma senhora comentou:

– Chico, foi muito bom. O ambiente estava ótimo. Eu me senti maravilhosamente bem!

O médium respondeu:

– Minha filha, aquele serviço é o meu guarda-chuva, a minha cobertura espiritual. Os Espíritos amigos daquele povo (os pobrezinhos) vêm todos me ajudar.

Quando cuidamos de qualquer pessoa, granjeamos a simpatia de seus parentes espirituais. Ao prestar auxílio a alguém, seus familiares e protetores, que já se encontram na espiritualidade, aproximam-se de nós agradecidos, pelo bem que prestamos ao seu ente querido

A eles se refere Chico ao afirmar que os espíritos amigos daquele povo (os pobrezinhos) vêm todos me ajudar.

Como Chico, a todo momento encontramos essa proteção, oriunda do bem que fazemos ao semelhante e à vida. Ao invés do resgate de faltas pretéritas, a justiça divina nos oferece uma moeda alternativa: ao invés da dor, o amor surge no momento em que praticamos a caridade.

— Todos temos mentores espirituais, familiares e amigos desencarnados que procuram aplanar nossos caminhos, ajudando-nos a cumprir compromissos, a superar dificuldades e limitações. Deus jamais nos deixa entregues à própria sorte. O esforço em favor do próximo não apenas melhora nosso padrão vibratório, colocando-nos em contato com as fontes da Vida, como favorece uma rede de proteção espiritual formada por esses Espíritos. Quando ajudamos alguém em suas dificuldades, exercitando solidariedade, somos ajudados por seus benfeitores espirituais, a exercitarem a gratidão.

CIDADANIA COM CARIDADE

Além da prática da caridade, vamos dizer assim, tradicional, em que nos preocupamos com a dor material e moral do próximo, Richard destacava sempre, em suas palestras, a necessidade de praticarmos a cidadania. No seu modo de ver, a humanidade tem se aproximado do caminho ideal do evangelho, desenvolvendo ideias que lembram a prática da caridade.

— Tal, por exemplo, é o conceito de cidadania, bastante difundido nas sociedades civilizadas.

Os deveres do cidadão, perante a sociedade, aproximam-se muito das regras morais cristãs.

Respeitar filas, jogar o lixo no lixo, colocar o carrinho do supermercado no lugar certo, ser cortês no trânsito, ser honesto na sua declaração do imposto de renda e, no geral, nada fazer que prejudique a vida social e dos demais cidadãos.

Simonetti ia mais além, entendia que a cidadania deve ser acompanhada da caridade.

PRECONCEITO

Um outro ponto no qual Richard batia firme era para que evitemos o preconceito, seja ele de cor, de posição social, de origem étnica, de gênero ou de orientação sexual.

Lembrava-nos, constantemente, das comunicações que recebia, em seus grupos mediúnicos, de escravos que, no passado, haviam sido impiedosos verdugos, que voltaram na pele dos que haviam trucidado.

Sempre foi respeitoso com os homossexuais, citando os exemplos de machões que retornaram como mulheres ou com personalidades trocadas. Além da homofobia, lembrava ainda da xenofobia, dizendo, constantemente, que a troca de posições, pela reencarnação, entre judeus e árabes é que irá resolver, um dia, suas diferenças.

TRABALHO

Richard Simonetti não era apenas um grande trabalhador, mas um grande incentivador do trabalho, pois o seu exemplo nos arrastava sempre. Quando desencarnou é que fomos ter ideia da sua atividade no Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru. Precisamos dividir entre três ou quatro de nós, diretores e voluntários da casa, para dar conta do trem de atividades que desenvolvia. Isso, além de, naturalmente, sua atividade literária, que era sagrada, em todas as manhãs.

Ele nos alertava para sempre estar ativos, evitando a inércia, o que iria contra a própria natureza humana. Citava sempre São Jerônimo:

Trabalha em algo para que o diabo te encontre sempre ocupado.

Ou o ditado popular:

Mente vazia é forja do demônio.

Ou mesmo Voltaire:

O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade.

O certo, portanto, para evitar que o demônio da inércia nos pegue, e com ele, venhamos a atrair espíritos infelizes ao nosso lado, portanto, é sempre ter o que fazer.

PRÁTICA MEDIÚNICA

Richard considerava a participação em reuniões mediúnicas como essencial para o frequentador da casa espírita. Dizia ele que a prática mediúnica era uma dádiva para a sua vida, que lhe facultara benefícios inestimáveis.

O contato com entes queridos, o socorro dos mentores, o afastamento de espíritos perturbadores, o exercício da caridade, no atendimento a entidades sofredoras e, finalmente, o espelho de nossas almas, dizendo-nos:

— Eu sou você amanhã, se você não levar a vida a sério.

Quando Richard começou a frequentar o Centro Espírita Amor e Caridade, estranhou esta exigência do mentor: deveria participar das atividades do CEAC para trabalhar no serviço mediúnico. Achou inoportuna e antipática a exigência, pois não tinha nada a ver uma coisa com outra.

Com o tempo, mudou de ideia:

— É fundamental que o participante do grupo mediúnico esteja integrado no Centro, voluntário em outras atividades, particularmente na área assistencial.

Argumentava que:

— Com todos unidos, seremos mais fortes e protegidos, elevaremos o padrão vibratório, conheceremos melhor as necessidades da casa espírita.

ESPIRITISMO PRÁTICO

Diz Chico Xavier que no Centro Espírita estamos empenhados no Espiritismo prático, mas que nossos orientadores espirituais estão esperando algo mais importante: o Espiritismo praticado.

Isso significa que não bastar entrar no Espiritismo. Indispensável que o Espiritismo entre em nós. Geralmente, vamos ao centro em busca de consolo, orientação e superação de nossas dores. Ao superarmos nossas fases mais difíceis, deveremos procurar saber não mais o que o Espiritismo pode fazer por nós, mas, o que nós poderemos fazer pelo Espiritismo.

Resumindo as palavras de Richard:

  É preciso que o conhecimento espírita desça do cérebro para o coração, o solo fértil da ação. É preciso ser espírita não de boca; espírita de atitude, de iniciativa, de empenho em favor de nossa renovação à luz dos princípios sagrados da Doutrina.

EREMITÉRIO

Eremitério: local escolhido pelo eremita para viver, que se isola do mundo, a pretexto de se preservar de suas impurezas, por amor à natureza, religiosidade ou falta de sociabilidade. Da Idade Média chegara a ideia de que o pecado seria superado por intermédio do sofrimento. Proliferaram várias fórmulas de sacrifício voluntário em forma de tecidos grosseiros, roupa com pele de cabra ou espinhos, que grandes personalidades portavam, discreta ou acintosamente, na prática do autossacrifício físico.

O insulamento absoluto, como forma de fuga do contato com o mundo ou de autoimposição penosa foi motivo de severas críticas dos espíritos consultados por Allan Kardec:

Fazer maior soma de bem do que de mal constitui a melhor expiação — alertaram os mentores.

Kardec tratou desse assunto e Simonetti o comentou em seus livros. Espíritos consideraram o isolacionismo como fruto do egoísmo humano. Richard Simonetti foi mais além. Nos nossos tempos, em que é mais raro esse tipo de isolamento, ele detectou outro eremitério: o do homem comum, componente de vasta parcela da população atual.

O eremita urbano participa superficialmente da vida social, para atender sua subsistência, sem misturar-se com os problemas da sociedade, em favor da qual deveria assumir atitude solidária, a fim de minimizar ou até solucionar as dificuldades que a afetam.

Ele possui dinheiro, conforto, poder e satisfação, mas não consegue alcançar a realização interior proporcionada pela dedicação às causas meritórias, que alcançam o próximo. A felicidade, ainda que relativa, aqui na Terra, só é alcançada quando conquistamos o seu tempero mais importante, a paz. E o método infalível para obtê-la, em nossas vidas, está na participação de movimentos de solidariedade em favor do bem comum.

O Centro Espírita está capacitado a nos oferecer precioso leque de atividades, que se abre aos voluntários que queiram servir. A casa espírita crescerá, na medida em que os seus voluntários saiam de suas cavernas, e assumam atividades preciosas em favor do ser humano carente.

Quando nossa sociedade estiver disposta a sair de seus eremitérios domésticos, praticando o bem comum, ela alcançará o equilíbrio, com paz, levando para seus lares de volta a verdadeira felicidade.

OS PRÓXIMOS CEM ANOS

Como falei, companheiros, ao início de nossa conversa, quem deveria estar aqui se expressando deveria ser Richard Simonetti e não eu.

Procuramos trazer suas ideias, seus escritos, seus estudos, suas esperanças e todos os planos que elaborou para esta casa que ele carinhosamente chamava de Casa Grande, conforme aprendeu com os mentores.

O que nos aconselharia Richard para os nossos próximos cem anos?

Com certeza nos alertaria quanto à necessidade de nos mantermos unidos, sob a inspiração da Doutrina Espírita, atentos à sua pureza doutrinária.

Com certeza nos alertaria para o perigo de práticas estranhas à Doutrina, como engarrafar espíritos, celebrar casamentos e batizados espíritas, criar consultórios do além ou desprezar o intercâmbio mediúnico.

Com certeza nos alertaria para a necessidade da real vivência, da prática, dos princípios da Doutrina Espírita, fugindo da simples teorização, com a veemência de Jesus, ao se referir aos chamados sepulcros caiados.

Com certeza nos alertaria, aos nos aproximarmos da data magna da cristandade, para nos prepararmos, pelo menos neste ano, em homenagem à sua memória, para um Natal decente. No dizer de Richard Simonetti, quem não pensa no Natal dos milhares de irmãos da periferia que passam fome não vivencia um Natal de verdade.

Com certeza Richard chamaria nossa atenção para as suas indefectíveis resoluções de ano novo, sempre ligadas à aceitação plena da orientação do Mestre Jesus, convidando-nos à iluminação e à conquista da paz, no ano que vai se iniciar.

Neste encerramento quero pedir desculpas a Irmão Jacó e Mãe Maria pela minha falta de educação, no início destas palavras. Entendam, queridos mentores, que não falei por mal, quando disse que vocês não trabalharam bem, quando levaram Richard tão cedo e tão repentinamente.

Com certeza Richard está sendo muito mais importante para a enorme seara de que vocês cuidam, do que para nós. Não obstante minha inconformação, no fundo eu sei que ele tem trabalhos muito mais importantes, aí na espiritualidade.

Os meus lamentos têm muito mais a ver com emoção do que com razão e sei também que a morte não costuma fazer convocações indevidas. Sempre há razões ponderáveis para o retorno à espiritualidade.

Pelos méritos de Richard, vocês, mentores, providenciaram a sua volta, independentemente da nossa choradeira e, o que eu cheguei a considerar como uma desfeita, nada mais foi do que um nó desfeito, em favor de um companheiro, que poderia ter sofrido muito mais para voltar à pátria espiritual.

E usando as suas próprias palavras eu diria:

Se lamentamos o trabalhador da Seara que parte prematuramente, em face da soma de serviços que prestava, que o situavam como um líder autêntico, não seria o ensejo para fazermos algo do que ele fazia, assumindo suas tarefas?

Certamente, Richard está muito bem na espiritualidade e com certeza, está usufruindo da sua condição de completista, por ter cumprido em plenitude os compromissos que assumiu ao reencarnar e por ter vivido integralmente o tempo que lhe foi concedido.

Recordo as palavras de Camille Flammarion pronunciadas no dia 01 de abril de 1869, no enterro de Allan Kardec.

— Agora que você voltou ao mundo de onde viemos, colha os frutos de seus estudos terrenos. O seu corpo caiu, mas a sua alma está no espaço. E não é nesse envoltório que pomos a nossa esperança. Um dia nos encontraremos num mundo melhor.  Como você sempre nos ensinou, a imortalidade é a luz da vida, como o sol brilhante é a luz da natureza.

Até logo, meu caro Richard, até logo.

Obras consultadas:
Por uma vida melhor, de Richard Simonetti
Obras Póstumas, de Allan Kardec
Voltei, Irmão Jacó


Autor: Sidney Fernandes

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