As Desigualdades e a Minha Medida

“Infelizmente, ainda predominam no planeta o orgulho e o egoísmo, sem dúvida, as duas maiores chagas, que, como se por si já não bastassem, geram outros problemas, de que são alguns exemplos a ganância, a vaidade, a arrogância, a soberba, a avareza, a usura, causando danos e prejuízos, às vezes, de enorme monta, a centenas de outras pessoas, sem que se deem conta de que somos apenas usufrutuários dos bens adquiridos e/ou concedidos”. – Livro dos Espíritos, questão 806

Qual é a sua medida pessoal?
É necessário entender que há essa medida para compreender a realidade que nos cerca.
Quem é pobre, quem é rico, até onde devo ir, até quanto devo exigir?
E mais: o que é entendido como exagero, o que é certo ou errado?
As respostas podem mudar a depender da compreensão da pessoa, dos seus conceitos e valores, de como cada um aceita tal ou qual situação na sua compreensão de normalidade e contexto.
Veja, furar a fila pode ser visto como algo banal para muitos ou como um comportamento corrupto para alguns.
Trair, dar o troco a menos, apoderar para si de um bem alheio só parece errado para quem faz se alguém descobrir… Pelo menos, é assim que muitos encaram o fato em seu cotidiano.
Tanto é que muitos se arrependem apenas depois do fato tornar-se escândalo público.
Um retrato da ação do orgulho e da vaidade em nós, essas duas grandes chagas.
Por que não nos arrependemos assim que erramos? Ou no início?
Enfim, qual é a sua medida?
Até quanto é errado colar na prova?
Até quanto você deixaria de declarar bens no imposto de renda?
Há um indicador para sabermos o quanto representa nossa medida pessoal para a percepção do certo e do errado, que é saber de nós mesmos se cada ação faria nos envergonhar perante os outros.
Bom mesmo seria nos envergonharmos dos erros, mesmo sem sermos vistos por ninguém.
Então, o certo e o errado vão se alternando em nossas vidas, por que ser reto, verdadeiro, justo e bom ainda não é o nosso objetivo maior.
E qual é o nosso objetivo?
Depende… Varia de resposta conforme quem nos faça a pergunta. Então, para um dizemos que o nosso objetivo é sermos bons pais, para outros é sermos bons profissionais, para aquele é sermos bons cristãos…
Assim, vivemos cá e acolá entre dois tipos de objetivos de vida.
Um é a aspiração. O que desejamos, almejamos em nossas vidas. Esse é um objetivo sublime, como atingir a felicidade, praticar a cidadania, tornar-se melhor…
O outro, é um objetivo imediato e materialista. Comprar o carro, fazer o curso para ganhar mais dinheiro, ser promovido, ser admirado, ganhar um posição melhor na empresa ou na sociedade…
E é justamente esse objetivo do nosso imediatismo ao qual nossa atenção foca quase 24 horas por dia. E é também aquele que nosso pensamento mais ancora e se distrai entre as poucas alegrias e às tantas frustrações.
Sim, pois as conquistas materiais são trabalhosas e efêmeras, portanto o prazer da conquistas e esvai quase imediatamente à conquista.
Assim, nos comportamos contraditoriamente dia após dia, dizendo uma coisa e fazendo outra.
Discursamos contra a corrupção e adoramos passar na frente da fila, burlar o imposto, colar na prova, mentir para pagar menos do que devemos.
O que queremos na prática? Queremos mais e queremos ainda mais depois que já temos muito.
Depois da bicicleta queremos a moto, depois desta queremos o carro. E quando passa a novidade do carro passamos a desejar outro carro, mais bonito, mais top, mais caro.
É aqui que entra a medida pessoal, variável, ilógica.
Por isso um pobre acha que aquele que possui algumas coisas é rico, porque sua medida de comparação é sua pobreza. Mas também o rico se acha pobre porque, em sua maioria, a sua medida pessoal é a comparação com outro ainda mais rico.
Assim, o abismo entre ricos e pobres cresce, na mesma medida da insatisfação pessoal de tanta gente, produzindo frustrações, depressão, suicídios e tantos sofrimentos.
O prazer e a satisfação não estão dos olhos para fora, mas do coração para dentro, para a alma.
No Livro dos Espíritos, na questão 814, os espíritos dizem que “Deus concede a riqueza ou a miséria a determinadas criaturas para experimentá-las de modos diferentes. Na maioria das vezes essas provas são escolhidas pelos próprios espíritos.”
Será que nós estamos passando na prova da pobreza ou da riqueza?
Assim posto, vamos a um ponto muito importante para nossa reflexão, a medida pessoal basilar para nos portarmos no mundo, quer seja como cidadãos, cristãos, espíritas, professores, o que quer que sejamos ou representemos: o quanto você se incomoda com os problemas dos outros?
A fome de outra pessoa te incomoda? Quanto?
A doença de um estranho te incomoda? Quanto?
A tristeza, a depressão, o suicídio de estranhos te incomodam? Quanto?
Se não incomodar muito, e se nos justificarmos que são outras pessoas, estranhas, distantes, sinto dizer, não estamos aprendendo quase nada.
E quem estão nos ensinando? Tudo. Todos.
A vida, as dores, a fome, a doença… Também os mestres, Jesus, as religiões, principalmente sua consciência, pouco ouvida e tão ignorada.
Na questão 803 de O Livro dos Espíritos diz que “Perante Deus todos os homens são iguais, todos tendem para o mesmo fim e Suas leis foram feitas para todos.”
Por isso, a fome, as desigualdades, as injustiças, enfim, devem nos incomodar muito! Até doer!
Viver olhando o próprio umbigo e pisando nos próprios rastros é viver uma vida pouco produtiva. Mesmo que possua muita fortuna, seria uma vida inócua, pois esse não é o real objetivo das almas que somos.
Estamos aqui para valer, não para ver o tempo passar!
Quando você partir para melhor, e eu espero que seja para melhor, mais valerá para você, enquanto espírito imortal, um prato de comida dado para um sofredor do que seu carro ou sua conta bancária.
Nossa verdadeira propriedade é aquela que nos faz crescer espiritualmente, nos faz amar mais, ouvir mais, amparar mais.

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