CONVIVÊNCIA FAMILIAR E SEU REFLEXO NA SOCIEDADE

A família sofre fortes influências políticas, econômicas, sociais e culturais, ocasionando mudanças nos papeis e nas relações em seu interior, do mesmo modo em que paralelamente vai alterando sua estrutura no que diz respeito à composição familiar. Graças a sua grande capacidade de ajustar-se às novas exigências do meio, a família tem conseguido sobreviver, a despeito das intensas crises sociais, segundo Engels (1982 apud SIMIONATO; OLIVEIRA, 2003).

As autoras supracitadas reforçam que a família é a matriz mais importante do desenvolvimento humano e também a principal fonte de saúde de seus membros. Pires (2008) elucida que o conceito de família, no seu sentido tradicional, desenvolve-se a partir de um casal que se une num projeto, numa aliança, originando uma rede extensa e complexa de relações e laços entre os membros que advêm da mesma.

Ao longo dessas transformações, principalmente a partir da década de 60, expandiram-se as inúmeras organizações familiares alternativas, tais como casamentos sucessivos com parceiros distintos e filhos de diferentes uniões, casais homossexuais adotando filhos legalmente; casais com filhos ou parceiros isolados ou mesmo cada um vivendo com uma das famílias de origem; as chamadas ‘produções independentes’ tornam-se mais frequentes; e dupla de mulheres/mães solteiras ou já separadas compartilham a criação de seus filhos, dentre outras configurações.

Nesta perspectiva em que a família se origina a partir de um casal, é importante entendermos o que aponta a questão 696 do Livro dos Espíritos (L.E) em que o Codificador da Doutrina Allan Kardec questiona: “Que efeito teria sobre a sociedade humana a abolição do casamento?”. Os espíritos respondem: “Seria uma regressão à vida dos animais. O estado de natureza é o da união livre e fortuita dos sexos. O casamento constitui um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna e se observa entre todos os povos, se bem que em condições diversas. A abolição do casamento seria, pois, regredir à infância da humanidade e colocaria o homem abaixo mesmo de certos animais que lhe dão exemplo de uniões constantes”.

Como se vê por meio da reposta dos Espíritos, a união conjugal/afetiva é de grande relevância ao nosso avanço moral, em que temos a oportunidade de nos conhecermos melhor, uma vez que segundo a psicologia o outro é o nosso espelho. Assim sendo, estando abertos ao processo de autodescobrimento, há ensejo da auto-observação, facultando a ambos o exame das projeções peculiares; reconhecendo desse modo a ‘pequenez’ humana, acolhendo, então, um ao outro. Além do privilégio mútuo de serem instrumentos perante à reencarnação na comunhão entre aqueles escolhidos para o consórcio familiar na condição de filhos.   

Dessa maneira, na questão 775 do L.E Allan Kardec pergunta: “Qual seria para a sociedade o resultado do relaxamento dos laços familiares?”. Reposta dos Espíritos: “Uma recrudescência do egoísmo”. Ou seja, um aumento com maior intensidade do egoísmo. Entende-se por egoísmo a atitude ou hábito de uma pessoa em colocar seus interesses, opiniões, necessidades pessoais etc. em primeiro e único lugar, não se importando com os demais, se pondo no centro de tudo independente de qualquer coisa ou pessoa. Neste entendimento, na questão 913 do livro em questão, os Espíritos trazem: “o egoísmo é o vício mais radical e que dele deriva todo o mal”.

Diante disso, havendo fortes sentimentos egóicos nas relações familiares como orgulho, vaidade, mágoa, individualismo etc., atrapalham significativamente a comunicação proativa (diálogo) entre os membros. Obviamente existirão conflitos entre os mesmos, pois somos seres subjetivos, e, portanto, haverá modos distintos de pensar e de se comportar fora e dentro das relações como um todo. É imprescindível compreender a importância de reconhecer a nossa individualidade e a do outro, sem anular-se e/ou impor pontos de vista, mas sim somar as características de cada um e chegar a consensos refletidos. Ou seja, respeitando o processo de subjetivação de todos nesta problemática.

Outrossim, divergir não é o problema, como já dito, mas o modo como diverge. É fundamental termos consciência sobre qual é o nosso estilo de comunicação preponderante. Entre eles estão os estilos passivo; passivo-agressivo; agressivo e assertivo. Resumidamente, a psicologia os define da seguinte maneira: Estilo passivo é representado pela pessoa que concorda com o que é dito ou com os acontecimentos à sua volta, mesmo não concordando. Passivo-agressivo: sempre têm algo a dizer, no entanto nunca diz, ou seja, não têm coragem para expressar o que pensa e reclama pelas costas, aquela pessoa conhecida como “duas caras”. Agressivo: responde de forma brutal a qualquer situação, gerando conflitos desnecessários e muitas vezes não percebidos pelo próprio. Assertivo: expressa de forma adequada/coerente os seus pensamentos e sentimentos, não perdendo de vista uma tentativa de solução para o eventual problema.

Destarte, o estilo de comunicação assertivo é tido como o modelo “ideal” de comportamento, pois seria o mais próximo do “equilíbrio”; no entanto, cabe salientar que geralmente utilizamos todos esses estilos de comunicação em determinados contextos. Há momentos em que temos atitudes mais passivas, por exemplo, e em outros mais agressivos e assim sucessivamente. Porém, um acaba prevalecendo, se tornando um estilo habitual, pois isso resulta dos tipos psicológicos, do ambiente em que está inserido e de tantos outros aspectos/dimensões bio.psico.socio.espirituais envoltos.

Retomando a questão 913 do L.E – em que aponta todo o mal como derivado do egoísmo – isso se dá pelo fato de colocarmos nosso ego sempre no topo, sendo conduzidos por nossas “más tendências”, dando ênfase ao individualismo, o que é diferente de individualidade, como já exposto anteriormente. Então, compreende-se que o modo de se relacionar com nossos entes repercute inteiramente no seio social em que nos encontramos. No livro Vida e Sexo, psicografia de Chico Xavier pelo Espírito Emmanuel, eles trazem que de todas as associações existentes na Terra […] nenhuma talvez é mais importante em sua função educadora e regenerativa do que a constituição da família.  

Partindo desse pressuposto, é sabido que independente da configuração familiar e do arranjo amoroso da atualidade, de acordo com as ciências humanas e sociais, (Pereira, 2015) enfatiza que as pessoas estão mais livres para construírem seus laços afetivos, em diferentes modelos de projetos existenciais. As mudanças fazem parte do processo evolutivo. Ou seja, não é o fim dos tempos, mas sim o início de uma nova era em que a liberdade e a ética do sujeito começam a falar mais alto que os padrões sociais preestabelecidos, e o sujeito vale mais do que o objeto na relação jurídica e social.

Corroborando com essa questão, Dalva Silva Souza no livro Os Caminhos do Amor, mencionado no Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE), Tomo II, elucida que o fato de ser a instituição familiar uma necessidade do homem não significa, contudo, que ela seja imutável […]. Toda mudança sempre acarreta um momento de desorganização e talvez daí tenha surgido a ideia de que a família está se desmoronando […]. Entretanto, o indivíduo que consegue ver o panorama social de um ponto mais elevado, que já desenvolveu a capacidade de pensar criticamente, pode discernir com mais facilidade acerca dos valores a serem preservados, separando-os daqueles que devem ser descartados, contribuindo, desse modo, para a consolidação do progresso.

Contudo, como já referido, a família é uma das instituições mais importantes da sociedade e ela vem, ao longo do tempo, passando por diversas transformações, alterando o seu significado de acordo com o ambiente e com o momento histórico em que se encontra. É preciso abandonar preceitos que não cabem mais, não importando quais configurações ou arranjos amorosos estão adequando, desde que estes sejam entrelaçados pelo amor e respeito mútuos. Se são regidos pela afetividade – qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar – como declamado na canção do grande Milton Nascimento.

Autora: Viviane Ferreira

Referências:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 76a. edição. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF, 1995.  

PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Afetividade e vínculos. In: Novas configurações familiares. SESC – Serviço Social do Comércio – Administração Regional no Estado de São Paulo. SP, 2015. Disponível em: <https://www.sescsp.org.br/pt/sobre-o-sesc/>.

PIRES, Ana Sofia Rodrigues. Estudo da conjugalidade e da parentalidade através da satisfação conjugal e da aliança parental. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. -Secção de Psicologia Clínica e da Saúde/Núcleo de Psicologia Clínica Sistêmica, 2008.

SIMIONATO, Marlene Aparecida Wischral; OLIVEIRA, Raquel Gusmão. Funções e transformações da família ao longo da história. I Encontro Paranaense de Psicopedagogia – ABPppr – nov. / 2003.

SOUZA, Dalva Silva. Os caminhos do amor. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1997. Item: a Família nos tempos modernos.

XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 24. Ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003.