O Tamanho do Meu Problema

Mundo de amor e de guerras
campo de batalha e paz,
do alvoroço que se faz
na construção dessa Terra.
Como água que vai ao mar,
corremos por pedregulhos
que nos ferem sem cessar
nos nossos egos e orgulhos.


É mundo velho — e ademais
carrega vícios recentes,
tantas vezes inclementes,
e que trazem tantos ais.
Mas nasce com alegria
— crianças em carrossel —
temos o amor todo dia
que puxa esse mundaréu!

A nossa sociedade é marcada por atribulações. Estamos o tempo todo preocupados, tensos, ansiosos.
É a prestação do carro, o empréstimo atrasado, o celular com defeito, o filho dando trabalho na escola… Sempre estamos aflitos por alguma coisa.
Sofremos porque temos um grande problema, uma doença, uma grande dívida, a emprego por um fio. Adotamos a máscara carrancuda em nossa face.
Mas se o problema for menor, digamos, uma unha encravada, um pneu furado, a pia pingando… Também perdemos o sono do mesmo jeito.
Então, o problema não é o nosso problema, mas me parece que é o peso que damos a ele. A maneira como encaramos.
O Buda disse que a primeira nobre verdade é que “a dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Tanto é que algumas vezes nos deparamos com alguém sem os braços, ou as pernas, ou com feridas profundas e vivendo tranquilos.
Como conseguem sorrir? Optando. Não dando peso à dor que sente.
Há tantos que sofrem por morar numa casa de classe mediana de bairro comum, outros festejam a conquista de um barraco há 10 quilômetros do centro da cidade. Outros ainda ficam felizes em poder pagarem o aluguel naquele mês.
Posso reclamar da comida que como todos os dias, mas há quem festeja poder comer carne no final de semana. Como é bom poder comer a “mistura”. Há também os que não comem e se alegram com a oferta de um lanche.
Para ilustrar essas afirmações, apresento esse conto que faz parte do meu livro O Semeador do Tempo e Outros Contos:

Mundaréu
— Êh, mundaréu!
Disse, o velho Antonio dos Anjos, estendendo a vista pela paisagem verdejante daquela manhã fria. Mundaréu in?compreensível aos seus olhos de homem simples, porém seu coração era suficiente para abarcar o firmamento.
O sol despontou no horizonte, manso, por trás das árvores frondosas, quando me aproximei um pouco mais dele.
— “Seu” Antonio, acordou alegre?
— Claro… Com um lindo dia desses! — respondeu
e continuou: — Nunca me acostumei com a lindeza desse lugar. A cada dia pergunto-me como as pessoas se enfezam tanto, ao mesmo tempo em que vivem em um quadro divino, respirando o sopro de Deus!
Eu nada disse, apenas escutei. Ele fitou-me com um olhar de quem vê o semelhante sem a máscara e a capa que o escondem de si mesmo e disse:
— Venha, vamos aproveitar a brisa da manhã — pegou um balde que estava pendurado na parede da cozinha e continuou: — Vamos ali, aproveitar a natureza desse lugar, para você levar alguma lembrança boa.
Andamos por uma vereda do pasto, esgueirando-nos por entre o mato ralo e o capim abundante que acumulava o orvalho da manhã. Chegamos a um curral rústico, feito de varas e estacas, contendo em seu interior algumas vacas que mugiam vez ou outra. Tranquilamente, o homem do campo pendurou o balde no poste central do curral.
— Primeiro vamos andar um pouco por aí — anunciou.
Pouco depois, estávamos no ponto mais alto do pasto, de onde vislumbrávamos paisagens verdejantes de grande
beleza, muitas árvores nativas mais adiante e alguns acidentes geográficos interessantes. A paisagem parecia um grande quadro vivo. Bem-te-vis voejavam sobre os animais que pastavam.
Ele apontava as serras, as matas e a vegetação, como se estivesse revelando a oitava maravilha do mundo, que até então estivesse desconhecida, e ele a descobria, como um conquistador de mundos.
Então me propôs:
— Olhe com atenção essa paisagem e segure na mente, meu amigo. Agora feche os olhos e respire profundamente o ar puro!
Obedeci, enchi o pulmão com o ar puro e fresco da manhã, senti uma sensação leve e agradável, de estar pleno, conectado com o Universo.
— Não é o sopro de Deus? — perguntou “seu” Antonio.
E era mesmo.
— Agora ouça o som da natureza. Não é a música dos anjos?
Silenciei meus pensamentos, procurei não pensar em nada, deixei minha alma captar os sons da natureza. Ouvi determinados sons outrora inaudíveis, entendi que é necessário silenciar o homem para poder ouvir a alma. Confesso que pensei ser aquele um pouquinho da música celestial.
Abri os olhos e vi o velhote à minha frente com um ar de satisfação, parecia ser o sorriso orgulhoso do artista que finaliza sua obra.
— Entendo porque o senhor vive sempre satisfeito.
— Eu vivo na graça e obra divinas, tudo é Deus, não posso ficar triste — respondeu:
— E o que o senhor diria para as pessoas que não acreditam em Deus?
Ele apenas olhou à sua volta e apontou-me algumas plantinhas floridas e respondeu:
— Veja essas flores tão simples e bonitas. O povo que diz que Deus não existe seria capaz de criar uma flor igual a esta?
Fez uma pequena pausa, respirou profundamente o ar e acrescentou:
— Será que os cientistas podem criar um perfume igual a este da natureza? Creio que podem imitar, mas fazer igual, nunca! O homem imita Deus e quando não consegue ser igual, nega que Ele existe.
Concordei com um aceno de cabeça e voltei a andar pela pastagem, seguindo-o de perto. De repente, ele pareceu ter uma ideia e falou:
— Sabe de uma coisa? Quando eu morrer, vou pedir ao
Criador para deixar-me voltar a viver aqui.
— Ora, o senhor acredita mesmo nisso? — perguntei.
— Às vezes acredito que a gente tá sempre repetindo a lição, igual ao estudante que não aprende tudo. Por isso eu acho que posso voltar — e fechou o diálogo com a seguinte pergunta: — Entendeu?
— Entendi.
Entendi também que muitos sábios aparecem disfarçados de tabaréus, para que, desnudos das suas fantasias mundanas, das ilusões do poder e dos títulos acadêmicos, possam descobrir o verdadeiro mundo. Aprendi que o mundo é do tamanho da nossa compreensão.
Mundo vasto, mundaréu.
O senhor Antonio dos Anjos, ali no descampado fresco da aurora matutina, esticou os braços como que querendo abraçar a natureza, gritou:
— Ê, mundaréu!

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