DÁDIVAS DOS CÉUS

Olhais para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?

 Mateus, 6:26

Padre Gonzalez viajara de Quito, Equador, descendo de barco o Rio Amazonas, em direção ao pequeno povoado da Ilha do Marajó, ao norte do Estado do Pará, em plena floresta amazônica.

Seguia os mesmos passos dos primeiros expedicionários de sua ordem, a dos mercedários – devotos de Nossa Senhora das Mercês, que foram pioneiros da fé no Novo Mundo.

Embora os tempos fossem outros, sabia das dificuldades que encontraria na região denominada Ponta de Areia, atualmente Malvaterra.

E realmente encontrou muita fome e pobreza. Os ribeirinhos conviviam com áreas de mata fechada, campos, várzeas e alagados, banhados pelo Rio Tocantins e pelo Oceano Atlântico.

Viviam de pequenos roçados e da pesca, cuja produtividade variava de acordo com o movimento das marés.

Com a ajuda de mestiços, descendentes de indígenas, holandeses, espanhóis e portugueses que por ali passaram, logo ergueu a pequena igreja.

E o povo passou a ter onde orar e lamentar sua vida difícil e carente.

Gonzalez sabia, porém, que se quisesse melhorar a vida daquela gente não poderia esperar que as graças caíssem somente dos céus.

Paralelamente às missas, novenas e procissões, o padre mercedário começou a estudar de que forma poderia melhorar o padrão de vida daquelas pessoas.

As distâncias dificultavam qualquer ajuda do continente. Hospitais e farmácias, só em casos extremos. Os remédios vinham da mata mesmo.

A pesca e os plantios não eram suficientes. Precisavam de nova fonte de renda, que lhes proporcionasse vida digna e saudável.

Passou a promover reuniões com as famílias. Queria saber mais, ouvir sugestões, novas ideias que pudessem tirar aquele povo da indigência.

Como falar de fé em Deus a um povo de barriga vazia e com muitas doenças?

Nem por isso deixaria de orar. Pedia a inspiração de Nossa Senhora das Mercês, buscando uma luz.

Costumava meditar caminhando pela praia, com as águas batendo em seus pés mansamente. Foi quando algo chamou sua atenção. Castanhas espalhadas, trazidas pela água. Examinou-as cuidadosamente e levou algumas para obter mais informações.

Sementes de andiroba! Eram utilizadas pelos ribeirinhos em animais que apresentavam ferimentos. O óleo de andiroba é aplicado em feridas expostas, evitando a contaminação por insetos nocivos.

Alguma coisa, todavia, dizia a Gonzalez que ali estava algo muito mais valioso. Embalou algumas castanhas e remeteu-as pelo correio da região – um barco que passava quinzenalmente – a um dos conventos mercedários do Maranhão.

Dois meses depois veio a resposta. E que resposta! Tratava-se do fruto da Carapa guianensis, cujos galhos, folhas e frutos, com o sobe e desce das marés, são trazidos das florestas para a boca do Rio Paracauari, numa viagem lenta e constante em direção ao mar. Depois de flutuar por várias semanas, as castanhas acabam chegando às praias.

  O mais importante, porém, estava no final da carta recebida do convento. O óleo de andiroba podia ainda ser utilizado para iluminação, fabricação de sabonetes, movelaria, indústria farmacêutica, como repelente de insetos e anti-inflamatório.

Um tesouro em suas mãos! Uma descoberta que poderia mudar as vidas dos habitantes de Ponta de Areia.

Reuniu os líderes da cidade e convenceu-os a irem em comissão a São Luís do Maranhão. Lá descobriram uma das indústrias produtoras de óleos, que se comprometia a comprar as castanhas em quantidade e de maneira regular.

Hoje a população de Malvaterra, outrora Ponta de Areia, tem uma cooperativa para vender a produção em conjunto, evitando os atravessadores da ilha.

Planejam produzir o próprio óleo, muito mais valioso do que as sementes, e que também tem mercado garantido na produção de cosméticos.

Cada família passou a ter um ganho extra, que elevou o padrão de vida do povoado. Continuam pescando e plantando, pois a safra do tesouro que vem da floresta e é trazido pelos rios e entregue de bandeja pelo mar ocorre durante cinco meses do ano.

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Hoje o Padre Gonzalez não se encontra mais encarnado neste mundo. É lembrado, porém, com respeito e carinho pelos moradores daquele obscuro povoado, por ter mudado para sempre suas vidas. Graças às orações, liderança, disposição em servir e seu imenso amor pelo semelhante, Padre Gonzalez continuará sendo a referência da fé em Deus, acompanhada da iniciativa e do trabalho do homem.

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Segundo Allan Kardec, os pedidos justos são mais frequentemente atendidos, como não pensais. Credes que Deus não vos tem escutado porque ele não fez um milagre por vós, enquanto ele vos assiste por meios tão naturais que vos parecem o efeito do acaso ou da força das coisas.

Padre Gonzalez tinha fé! Com ela abriu suas comportas espirituais e ouviu os mensageiros de Deus. A partir daí, a realização do milagre foi apenas uma questão de tempo, dedicação, trabalho e persistência.