Desafios da convivência no lar – como superá-los

É sabido que o casamento inicialmente é a ideia de uma sociedade formada pela união para ‘toda vida’ entre duas pessoas, amparados pela lei. Hoje, percebe-se que essa concepção continua “cristalizada”, no entanto, sem a necessidade ou obrigatoriedade de se estar demarcada judicialmente. Féres-Carneiro (2011) – grande estudiosa das relações casal e família no campo da psicologia – aponta que os relacionamentos amorosos partem ‘de um porto seguro’, onde os parceiros completam suas lacunas, em nível inconsciente; em que o casal busca companhia, segurança relacional e boa convivência, além de criar expectativas que precisarão ser satisfeitas.

De acordo com essas expectativas, à luz de Sigmund Freud (1923/1914 apud QUISSINI; COELHO, 2014) as pessoas possuem no psiquismo particularidades inconscientes já preestabelecidas. Essas particularidades poderão influenciar na escolha do parceiro e no contexto conjugal: em que cada um terá construído seus ideais, suas imagens e fantasias sobre a conjugalidade, estando referenciadas com o relacionamento que se estabelecia dos próprios pais e nas gerações familiares antepassadas.

Corroborando com Freud, Carl Gustav Jung elucida que geralmente os motivos envolvidos na escolha de parceiros para o casamento não são totalmente conscientes, embora, quando se pergunte à pessoa o que a levou a escolher aquele parceiro, ela acredite que a escolha foi consciente, porque aconteceu por sua livre e espontânea vontade. Porém, não é exatamente assim que acontece; escolhemos os nossos parceiros inconscientemente; não totalmente, mas grande parte dessa escolha é movida por aspectos ‘ocultos’.

Em consonâncias às ideias de Jung (Pardal e Bassit, 2008) esclarecem que no momento em que nos apaixonamos projetamos no outro todas as expectativas e todas as qualidades que admiramos para um relacionamento. É muito comum também que nesta fase, para não quebrar a magia que se instalou, o outro se esforce demasiadamente para continuar sendo exatamente como foi idealizado. Isso se torna um grande problema a médio e longo prazos, pois este último se aniquila objetivando se adaptar aos desejos e perspectivas do outro, sendo que muitas vezes está distante da sua real verdade interna.

É importante entendermos o nosso ‘lugar’ nas relações e o ‘lugar’ do outro, sem esperar tanto deste outro o que ele não tem ou que não pode nos oferecer, pois como se sabe, de acordo com a filosofia espírita, estamos todos num processo evolutivo distinto, com necessidades e aspirações em diferentes níveis/padrões. Portanto, saber identificar e separar o que é nosso do que é do outro – nesta compreensão psicológica das relações afetivas – é de extrema relevância para vivermos em harmonia, dentro do que nos é possível, enquanto seres subjetivos e complexos.

Como dito pelos Espíritos orientadores a Allan Kardec na questão 695 do livro dos espíritos, o casamento, a união entre dois seres é um progresso na marcha da Humanidade. Nesta perspectiva, Kardec comenta que este mesmo constitui um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna e se observa entre todos os povos, se bem que em condições diversas.

Isto posto, entende-se o quanto é desafiador estabelecer uma convivência satisfatória entre os casais. À luz de Zygmunt Bauman (2004 apud DINIZ, 2010), o relacionar-se é um contexto marcado pela ambivalência, ou seja, de um lado está o desejo de estabelecer um vínculo permanente e do outro está o temor gerado pelo preço que se há de pagar por tal permanência. Valores contemporâneos como liberdade e individualidade, aliados à ênfase na satisfação e a pouca tolerância, afetam a disponibilidade para investir em um relacionamento de forma duradoura.

Esta mesma autora destaca que todo homem e toda mulher trazem para a relação hábitos, valores, costumes e uma herança afetivo-emocional de suas famílias de origem. Dessa forma, existem muitos aspectos a serem conversados/discutidos para que as diferenças entre ambos não prejudiquem a relação ao ponto de acarretar numa ruptura.

Assim sendo, a construção do relacionamento envolve negociações para o estabelecimento de um contrato que vai servir de base para o funcionamento conjugal/afetivo. Esse contrato inclui várias dimensões: a sexualidade, as formas de demonstração de afeto aceitáveis em público e no contexto privado, a comunicação, as estratégias de negociação de diferenças e de resolução de conflito, a organização da vida a dois, a divisão de tarefas entre o par conjugal, ter ou não ter filhos, a criação destes mesmos, dentre outros aspectos.

Primeiramente, é crucial identificar a razão pelo qual se quer casar/conviver com determinada pessoa. Se perguntar o que a/o fez escolher tal parceira/o, e se realmente almeja concretizar o enlace; pois há vários motivos pelos quais as pessoas entram num relacionamento, tais como as projeções feitas conforme mencionando anteriormente; pressões familiares ou sociais para casar, ou seja, achar que todas as pessoas devem obrigatoriamente se casar;  medo de ficar sozinho para sempre; porque foi pedida/o em casamento; admiração por alguma característica física ou moral do outro; crença de que necessidades pessoais seriam supridas, como dinheiro, sexo, afeto etc.

Apenas se estas questões estiverem minimamente em níveis conscientes, é que poderemos, de fato, usar ao nosso favor e estruturar uma boa relação com nossa parceira/o. Muitas vezes estamos tão inconscientes destes conteúdos internos ou tão presos a pressões externas que nos permitimos aceitar tudo e qualquer coisa dentro dos relacionamentos, os tornando cansativos e autodestrutivos.  Isso também pode se dá quando as necessidades básicas da infância não foram supridas, e, então, acabamos buscando nos relacionamentos o carinho e o afeto que não obtivemos de nossos pais/cuidadores, como explicitado por grandes estudiosos da psicologia clínica.

Como consequência dessa situação, muitas vezes, podemos permanecer em relações degradantes achando que é missão/karma ou qualquer outra estrutura de impedimento à maturidade emocional e ao avanço moral. Se prender a essa linha de ‘raciocínio’ é a comprovação da falta de autoconhecimento e da falta de estudo da própria Doutrina Espírita. Isto se torna uma prisão muito grande no psiquismo, uma vez que se coloca numa posição de vítima e formam crenças/esquemas enrijecidas de abandono e de subjugação, sem nem “se dar conta”.

Desta maneira, o autodescobrimento é essencial para não continuarmos carregando um peso desnecessário, ou – por analogia – de não vestir uma roupa que não nos serve mais. Em outras circunstâncias, mas ainda dentro desta lógica, muitos se queixam  de não receberem amor dos pais ou de algum familiar próximo, atribuindo a “culpa” de sua infelicidade a estes, mas sem se questionar o que tem feito por sua família, o que tem dado nessa relação, se compreende seu papel/lugar e o do outro, ou se só tem exigido. Sem esses questionamentos ficamos acreditando que somos injustiçados ou incompreendidos. “De todas as provas, as mais penosas são as que afetam o coração”, como apresentado no Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 14, item 9.  

Retomando a ideia da conjugalidade/união afetiva, Saffioti (1987) destaca que a identidade social da mulher, assim como a do homem, é constituída através da atribuição de distintos papeis, que a sociedade espera ver cumpridos pelas diferentes categorias de sexo. A sociedade delimita, com bastante precisão, os campos em que pode operar a mulher, da mesma forma como escolhe os terrenos em que pode atuar os homens. Nesta perspectiva, na questão 821 do Livro dos Espíritos, Kardec pergunta: “As funções para as quais a mulher está destinada pela Natureza têm uma importância quanto às do homem? Resposta: “Sim, e maiores; é ela quem lhe dá as primeiras noções da vida”.

Este questionamento foi de crucial importância para compreendermos que mesmo a sociedade delimitando papeis/conduta distintos entre os gêneros, não há inferiorizarão da mulher como infelizmente muitos tentam justificar e impor. A este respeito, Francisco Cândido Xavier na obra “Boa nova” pelo Espírito Humberto de Campos enfatizam que uma e outro [a mulher e o homem] são iguais perante Deus […] e as tarefas de ambos se equilibram no caminho da vida, completando-se perfeitamente, para que haja, em todas as ocasiões o mais santo respeito mútuo. Diante disso, entende-se que para haver harmonia e maturidade emocional entre o casal, é imprescindível que ambos estejam inteirados desta questão, evitando assim o estacionamento do avanço da relação.

 Como visto ao longo da história, com o declínio do patriarcalismo e a ascensão do movimento feminista, a partir do século XX, as mulheres começaram a reivindicar seu ‘lugar ao sol’, sua condição de sujeito do próprio desejo. Porém, apesar de todas as conquistas até o momento, ainda precisamos continuar lutando pelo nosso espaço, uma vez que “essas diferenças” estão bastante enraizadas e são vistas como reflexo de uma ordem natural. Por exemplo, na organização tradicional de família, o homem era considerado o chefe da casa, o que dava a última palavra; enquanto a mulher era rainha do lar, responsável pela manutenção do bem estar dos membros da família; inclusive pela educação dos filhos. Teria que ser ‘resignada’ para ser aceita como mulher de ‘verdade’, pois mesmo que o marido fosse infiel, ela teria que aceitar sem questionar.

É notório que existem atualmente várias configurações familiares e novos arranjos amorosos, no entanto, é importante que permaneçam o respeito e afetividade, independente da forma de se relacionar – desde que ambos estejam confortáveis e conscientes de suas escolhas –. Sobre tal ponto, cabe trazer a indagação de Kardec aos Espíritos na questão 701: “Qual das duas, a poligamia ou a monogamia, está mais conforme com a lei natural? Resposta: “A poligamia é lei humana cuja abolição marca um progresso social. O casamento, segundo os objetivos de Deus, deve ser fundado sobre a afeição dos seres que se unem. Com a poligamia não há afeição real, mas sensualidade’.

Neste caso, entende-se que como a união conjugal/afetiva é lei natural, o ideal é que ambos sejam fiéis ao comprometimento, respeitando a confiança que fora depositada. Assim, não cabe somente à esposa/companheira respeitar o acordo – como a sociedade machista prega –, pois se alguém quiser viver outras experiências e/ou não estiver satisfeito com a relação, é mais sensato que se separe ou procure encontrar meios de solucionar a problemática; inclusive, se necessário, com orientação de um profissional.

Na vertente da questão supracitada, Kardec comenta: “Se a poligamia fosse conforme a lei natural, ela deveria poder ser universal, o que seria materialmente impossível, visto a igualdade numérica dos sexos. A poligamia deve ser considerada como um uso ou uma legislação particular, apropriada a certos meios, e que o aperfeiçoamento social faz, pouco a pouco, desaparecer”. Paralelamente, Francisco Cândido Xavier em “O consolador” pelo Espírito Emmanuel trazem que o homem e a mulher, no instituto conjugal, são como o cérebro e o coração do organismo doméstico. Ambos são portadores de uma responsabilidade igual no sagrado colégio da família.  

Diante do exposto, é necessário que tenhamos noções básicas de convivência saudável, obviamente todo casal e família funcionam de um modo particular, porém, é primordial que antes de qualquer coisa, a pessoa tanto se conheça quanto se aceite. É um processo doloroso, pois nos coloca em contato com nossas sombras – que na visão de Carl Jung é o que somos, mas não queremos ser. Muitas vezes, para fugirmos de nossas verdades internas (sombrias) criamos várias máscaras (personas), inclusive inconscientes com o intuito de não olharmos para dentro, incorporando personagens e fingindo ser quem não somos, idealizando uma realidade (neste caso fantasia) que não nos compete. Esse pode até ser um caminho fácil, mas com certeza num futuro próximo se tornará espinhoso.

Como mencionado anteriormente, fazemos tantas projeções (vemos o que é nosso no outro) e condenamos suas atitudes sem perceber que estas são apenas nossos reflexos. Será que nunca erramos nas relações? É interessante que façamos essa interpelação. E mesmo quando o outro erra, será que somos tão corretos ao ponto de agir com intolerância ao erro alheio? Só podemos mudar o que identificamos e aceitamos em nós mesmos. Sendo mais tolerantes e amorosos com a gente, automaticamente nos tornamos menos exigentes com nossos parceiros. É a máxima do autodescobrimento.

É preciso abandonar a ilusão de um relacionamento idealizado equivocadamente, muitas vezes pelas redes sociais ou comparações, e passar a observar o amor real, o amor possível, o que está ao nosso alcance, e então, procurar manter uma interação aprazível. Fala-se bastante na prática do Evangelho no Lar com o objetivo de trazer paz e felicidade ao lar; e realmente é fundamental, pois é uma oportunidade de reunir os componentes da família, sob o amparo da Espiritualidade; além de propiciar-lhes uma vivência mais tranquila, dado que compreendendo os ensinamentos do Cristo.

Contudo, não basta realizar o evangelho ou qualquer um outro “ritual” para manter um bom relacionamento com nós mesmos e com os demais se não estivermos abertos a nos olhar verdadeiramente, a nos permitir ser quem somos e permitir que o outro seja quem ele é. A convivência é, sem dúvida, muito desafiadora, mas bastante possível facilitar a busca de um ambiente propício à nossa caminhada evolutiva e ao cumprimento da incumbência que nos fora facultada dentro das relações afetivas/familiares.

Autora: Viviane Ferreira

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DINIZ, Gláucia. O casamento contemporâneo em revista. In: FÉRES-CARNEIRO, Terezinha (org.). Casal e família: permanências e rupturas. – São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.

FÉRES-CARNEIRO, Terezinha; ZIVIANI, Cílio; MAGALHÃES, Andrea Seixas. Arranjos amorosos contemporâneos: sexualidade, fidelidade e dinheiro na vivência da conjugalidade. In: FÉRES-CARNEIRO, Terezinha (org.). Casal e família conjugalidade, parentalidade e psicoterapia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

KARDEC, Allan, 1804-1869. O livro dos espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP, IDE, 177ª edição, 2008.

KARDEC, Allan, 1804-1869. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP, IDE, 265ª edição, 2009.

PARDAL, Aurea Emília Cordeiro; BASSIT, Débora Pastore. A dinâmica inconsciente na escolha de parceiros para o casamento. Boletim. psicol v.58 n.129. São Paulo, dez. 2008.

QUISSINI, Cintia; CELHO, Leda Rúbia Maurina. A Influência das Famílias de Origem nas Relações Conjugais. São Paulo: Pensando Famílias, 2014.

SAFFIOTI, Heleieth I.B.O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.

XAVIER, Francisco Cândido. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 32. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Cap. 22, p. 148-148.

____________. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 24. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003, questão 67, p. 53.