Quem Realmente Somos?

Somos o melhor resultado de nós mesmos até agora!
Do ponto de vista do Espiritismo e de outras doutrinas reencarnacionistas, fomos criados simples e ignorantes e estamos em pleno processo evolutivo, muito lentamente para a maioria de nós.
Quem fomos lá no passado? A maioria das pessoas pensam que eram reis, príncipes e princesas, gênios, ricos, santos!… Na verdade, não. Não mesmo.
É uma questão de lógica, eram poucos reinos e cada um só tinha um rei por vez, assim como hoje.
Eram poucos ricos, a maioria da população era pobre, sempre foi assim.
Poucos gênios no mundo, hoje em dia ainda são raros.
Pouquíssimos santos ou santas… E hoje, quantas pessoas santas você conhece?
O que eu quero dizer com isso? O óbvio.
Quase todo nós éramos bandidos, violentos, beberrões, briguentos, corruptos… Mas fomos aprendendo com as dores e com as pauladas que toda ação tem uma reação. Assim também como toda boa ação nos faz experimentar um raro momento de felicidade.
A nossa natureza instintiva foi dando lugar cada vez maior à natureza intuitiva. Aprendemos com nossos erros e acertos, colhemos tudo o que plantamos.
Entretanto, o aprendizado é lento para a maioria de nós. Passamos toda uma vida para aprendermos um pouquinho mais sobre amar o próximo, dominar nossas más tendências, acertar um pouco mais onde errávamos, perdoar ou pelo menos desculpar.
Mas o passado ainda está em nós. E qual é a nossa “bagagem” do passado? Tudo o que ainda prevalece em nós.
Não vou aqui dizer quem você é, pois nem sei quem eu sou. Mas eu e você podemos ter uma ideia de quem somos, basta respondermos honestamente algumas perguntas.
Durante o dia, a maioria do meu pensamento é bom ou ruim?
Diante de uma ofensa, o que sinto e como me comporto?
O que faço de bom para a sociedade?
O quanto eu amo?
Não sei você, mas eu não me sinto confortável diante desses questionamentos. Imagino que o resultado em mim, do que fiz e do que sou, poderia ser bem melhor.
Então, o que prevalece em nós, ainda (e ainda bem que é “ainda”, pois estamos em plena jornada evolutiva) é tudo aquilo que não aprendi a ser, o que não me tornei.
Por isso somos tão atraídos pela violência, facilidades, materialismo, egoísmo…
Escrevi um conto para representar essa situação.

O Filme Tão Esperado!
O filme estava sendo anunciado há meses. Como todo bom fã de ficção científica, fiquei vários meses esperando filme ser exibido no cinema.
Tratava da chegada de uns extraterrestres que iriam fazer e acontecer na ordem mundial. Quando, enfim, foi lançado, seria apenas nos cinemas das grandes cidades… E eu moro numa cidade pequena, não poderia ir, pelo menos por aqueles dias.
Então, fiquei na minha, quero dizer, fiquei na moita, me fazendo de esquecido para o tempo não me impacientar ainda mais.
Até que um dia, acho que por acaso, se bem que sou bem desconfiado do acaso, esse nunca foi de confiança… Bem, eu estava sentando no salão da agência bancária, esperando ser atendido, junto com mais cinco ou seis impacientes, quero dizer, clientes.
Havia um jovem conversador do meu lado, falando do seguro do carro, do alarme do carro, da gasolina do carro… do carro. Até que consegui fazê-lo mudar de assunto e… Tchán, tchán, tchán! Ele tinha assistido ao filme!
—E aí, e aí? ―perguntei. ― O filme é bom mesmo?
—Que nada, cara! Péssimo, filme chinfrim, chinfrim!
Fique decepcionado. O filme que eu esperava há meses era péssimo? Resolvi botar os pontos nos is…
—Espera, os efeitos visuais são bons?
—Ah, sim, são muitos bons, são sim.
—E as atuações?
—Ótimas…
—E o enredo, a história, como é?
—É aí que mata o filme ―explicou ele. ―Na história chega uma nave enorme e convoca os líderes mundiais…
—Sim, beleza, e aí, e aí? ―perguntei quase sem me conter.
O cara continuou:
—A história passa a ideia de que as questões mundiais devem ser resolvidas com o diálogo, sem precisar de guerras.
—O quê mais?
—Passar essa ideia de que o mundo deve ter unidade global, pacífica, buscar interesses em comum para não haver conflitos entre os diferentes povos… Patético, “meuirmão”, patético!
Nesse momento eu olhei para ele e ainda não havia entendido porque achava o filme patético e caí na besteira de perguntar:
—E por que você não gostou?
—Porque tem essa ideia de gente besta! Essa coisa de igualdade, de respeitar diferenças!
Juro para você, senti que um sinal de interrogação saiu da minha testa, bem vermelho, e foi crescendo, crescendo até tomar toda a agência. Nossa, como eu boiei!
Então, com cara de guaxinim que dá de cara com um cachorro azedo, olhei para ele e disse:
—Uai! E como era para ser o filme?
Ele me olhou demoradamente, creio que me achou ingênuo e respondeu:
—Oxi! Esse negócio de chegar extraterrestre aqui e convocar os povos para ficar de boa, presta não. Tinha era que o Pentágono meter bala, mísseis, bomba atômica, bazuca, bomba H!
Nesse momento, o pessoal da agência, as moscas e até os fantasmas já olhavam para a gente e eu já olhava para o chão…
E o rapaz, tentando fazer graça, simulou segurar o extraterrestre pelas orelhas, se é que tem orelhas, e como se olhasse nos olhos dele, gritou empolgado:
—Pede pra sair! Pede pra sair, soldado!! ― Aí, sem constrangimento nenhum, bateu a palma de uma mão na outra, como se estivesse limpando-as e me disse: ― É assim que tem que tratar os inimigos!
Eu procurei um buraco no chão, mas não tinha. Tive vontade de fingir desmaiar para ver se ele parava de falar… Claro, porque quem olhava via dois caras dialogando, então para eles eu era outro doido, igual, igual…
Por fim, ainda tentei justificar o filme:
—É, mas tem gente que gostou do filme.
—Quem gostou é intelectual retardado!
Hummm, intelectual retardado, creio que é uma expressão contraditória, pois é uma coisa ou é outra.
—Senha 95! ―chamou o atendente.
Era a vez dele, graças a Deus!
E eu fiquei ali pensando, será que ele estava certo? Esse negócio de igualdade, de diálogo para resolução dos problemas, de dividir, de repartir eram mesmo coisas de gente besta?
Mas logo me lembrei de um cara que dizia:
—“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia”.
Ah, ele também pegou pães e peixes e dividiu com um monte de gente que não tinha o que comer!
Então, com esse pensamento na cabeça, pensei cá comigo:
—“Vou ver esse filme!”

Eis que nós também estivemos representando muitos personagens em tantos e tantos filmes que atuamos. Fomos vilões, personagens secundários, coadjuvantes, protagonistas… Mas as histórias eram a nossa própria história, as dores nós sentimos, os amores também. Resta saber qual o final da história queremos ter. Um final feliz? Depende da nossa atuação.
Por sorte, dessa vez estamos melhor do que antes. Bom filme.

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