Reconciliação

“A reconciliação é um basta
em seguirmos fragmentados”

Luisa Sabbadini

A assertiva de Jesus segundo a qual torna-se imprescindível, para aquele que anseia liberdade no agir, reconciliar com o seu adversário enquanto estás a caminho com ele, reveste-se de um profundo convite à mudança dos padrões pelos quais se encara a vida. O olhar o mundo pertence a cada um em particular. Ele é o mesmo quando estacionamos na conformidade; transmuta-se na medida exata da resignificação interior.

Proposta muitas vezes incompreendida reporta-nos à obediência da lei e dos amigos mais avançados em conhecimento e experiência. O farol de nossas vidas, Jesus, alumia os escaninhos do coração aliviando torturas morais que depositamos ao longo dos milênios e jazem aguardando uma vontade firme ordenar: “Lázaro, vem pra fora”. E uma nova proposta de vida descortina-se a partir daí.

Ajustar para avançar.

A reconciliação, em última instância, sempre será conosco. Uma atitude capaz de aliviar o sentimento denso de carregar um fardo dispensável e incômodo. Assim, seguimos iludidos de que o adversário é sempre o próximo que está a nos fustigar. Alimentamos o propósito de eliminá-lo na esperança de encontrarmos o reino da paz imorredoura. O posicionamento de Jesus, contudo, é diametralmente oposto a essa vã esperança.

Harmonizar é libertar-se.

Toda mudança requer trabalho e esforço constante, ainda mais em se tratando de sacudir o pó dos equívocos interiores que sedimentaram-se em maus hábitos. Procurando justificá-los, buscamos, incansavelmente, alternativas de menor esforço. Essas consistem em espelhar no semelhante o adversário que, inadvertidamente, vem ao nosso encalço para vergastar nosso bem viver. Embora o caminho trilhado

Tenha sido o da fuga e ilusão dos próprios atos, resta-nos a advertência do mestre; “reconcilia-te depressa…”

O adversário é um pedaço de nós mesmos que temporariamente se desprende encontrando outra morada. Como um adolescente rebelde nos vê de outro ângulo e retruca até que saiamos da aparente tranquilidade. Tira-nos a nossa paz, mas oferece-nos a paz do Cristo, desde que aceitemos e entendamos o seu propósito. Com a mente aberta, dispomos de novos horizontes a serem conquistados, fruindo ares renovadores e compensatórios.

Desafio é oportunidade para o reequilíbrio.

Reconciliar com o adversário é amar-se a si mesmo e a Deus acima de todas as coisas. É oferecer uma chance à paz. É aperceber-se da primavera brotando de dentro para fora de nós. É sentir o aroma encantador das flores e frutos nascidos do trabalho permanente de autotransformação. É relaxar e deixar que a vida tome as rédeas dos nossos afazeres. É ter fé e confiar na misericórdia divina. É dançar com os pés lépidos e faceiros ao som inaudível aos padrões rasteiros dos interesses egoísticos.

Saturar-se do que se é, das brigas infundadas e das querelas que não chegam a lugar algum é oferecer-se a novos paradigmas. Reconciliação é dar um basta em seguirmos fragmentados e ausentes do fluxo de ir e vir. É propor novas atitudes e experimentar o hoje ressignificando o ontem e sedimentando o vistoso amanhã.

Por Roberto Sabbadini